terça-feira, 3 de julho de 2007


Sonho


Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho O sol esplêndido
extinguira-se, e as estrelas Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra Girava cega e
negrejante no ar sem lua; Veio e foi-se a manhã - veio e não
trouxe o dia; E os homens esqueceram as paixões, no horror Dessa
desolação; e os corações esfriaram Numa prece egoísta que
implorava luz: E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos, Os
palácios dos reis coroados, as cabanas, As moradas, enfim, do
gênero que fosse, Em chamas davam luz; cidades consumiam-se E os
homens se juntavam juntos às casas ígneas Para ainda uma vez olhar
o rosto um do outro; Felizes quanto residiam bem à vista dos
vulcões e de sua tocha montanhosa; Expectativa apavorada era a do
mundo; queimavam-se as floresta - mas de hora em hora Tombavam,
desfaziam-se - e, estralando, os troncos Findavam num estrondo - e
tudo era negror. À luz desesperante a fronte dos humanos Tinha
um aspecto não terreno, se espasmódicos Neles batiam os clarões;
alguns, por terra, Escondiam chorando os olhos,; apoiavam Outros
o queixo às mãos fechadas, e sorriam; Muitos corriam para cá e
para lá, Alimentando a pira, e a vista levantavam Com doida
inquietação para o trevoso céu A mortalha de um mundo extinto; e
então de novo Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos E cheias de terror
voejavam junto ao solo, Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras, E entrelaçavam-se
por entre a multidão, Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo, E qualquer refeição
comprava-se com sangue; E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara; A terra era uma idéia
só - e era a de morte Imediata e inglória; e se cevava o mal Da
fome em todas as entranhas; e morriam Os homens, insepultos sua
carne e ossos; Os magros pelos magros eram devorados, Os cães
salteavam os seus donos, exceto um, Que se mantinha fiel a um
corpo, e conservava Em guarda as bestas e aves e os famintos
homens, Até a fome os levar, ou os que caíam mortos Atraírem
seus dentes; ele não comia, Mas com um gemido comovente e longo, e
um grito Rápido e desolado, e relambendo a mão Que já não o
agradava em paga - ele morreu. Finou-se a multidão de fome, aos
poucos; dois, Porém, de uma cidade enorme resistiram, Dois
inimigos, que vieram encontrar-se Junto às brasas agonizantes de
um altar Onde se haviam empilhado coisas santas Para um uso
profano; eles as revolveram E trêmulos rasparam, com as mão
esqueléticas, As débeis cinzas, e com um débil assoprar Para
viver um nada, ergueram uma chama Que não passava de um arremedo;
então alcançaram Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram - Morreram de
sua própria e mútua hediondez, Sem um reconhecer o outro em cuja
fronte Grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara, O populoso
e forte era um informe massa, Sem estações nem árvore, erva,
homem, vida, Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada Mexia em suas profundezas
silenciosas; Sem marujos, no mar as naus apodreciam, Caindo os
mastros aos pedaços; e, ao caírem, Dormiam nos abismos sem fazer
mareta, Mortas as ondas, e as marés na sepultura, Que já findara
sua lua senhoril. Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a Escuridão não precisava De seu auxílio - as Trevas
eram o Universo.